Trezentas novas posições

Outubro 21, 2014Bianca MólSem Comentários

“Cabelos ruivos: nova tendência fashion em Milão”. “Roupas de couro: monte um look sexy e elegante”. “Corpinho dos sonhos: acompanhe a rotina da top Paula Pitta”. “Trezentas novas posições incríveis para enlouquecer o seu homem na cama”. Trezentas! A capa da edição de agosto da “Sua Revista” estava imperdível. Encontrá-la nas bancas da zona sul do Rio de Janeiro era uma verdadeira caça ao tesouro, afinal, Paula Pitta, protagonista da novela das oito, era a referência de beleza do momento. Que corpo, que pele, que cabelos! Ela atuava mal? Que se dane. Que corpo, que pele, que cabelos!

Após subornar o seu Floriano, porteiro de seu prédio em Botafogo, Maria Clara roubou o exemplar da vizinha do 302, assinante da “Sua Revista”, o que rendeu discussões calorosas na reunião daquele condomínio de classe média. Mas não interessava: valia o risco. Maria tinha um encontro marcado com Mauricinho e todos sabem que, na vida, certas oportunidades não podem ser desperdiçadas (é o caso de alguém te oferecer carona em um dia chuvoso, a sua operadora oferecer gratuitamente um iPhone 5 ou ir a um encontro com aquela pessoa que você sempre sonhou, mesmo que o apelido dela seja no diminutivo).

Mauricinho era um cara daqueles que valia a pena. Maria Clara sabia disso. Desses que abrem a porta do carro, davam rosas, ligavam no dia seguinte e ainda chamavam de “meu amor”. A “Sua Revista” disse, em abril, que esse era o cara ideal, ainda que Maria preferisse andar sentindo a brisa e o balanço do ônibus (cada um com suas manias), fosse terrivelmente alérgica a flores e associasse o apelido “meu amor” a sua vozinha Clotilde, que insistia em chamá-la dessa maneira.

Marcaram um cinema e um jantar. Maria Clara tinha os cabelos encaracolados, num tom de marrom escuro, vestia-se com conjuntinhos floridos e jamais usava maquiagem. Lera na “Sua Revista” de janeiro que cosmético danificava a pele, deixava oleosa e ainda podia dar espinha. Espinha! Jamais. Na edição de fevereiro, porém, vinha uma lista das “makeups que não podiam faltar na bolsa de qualquer mulher”. Apesar da contradição editorial, optou pelo não-uso, mas tão só pela praticidade e pela redução de gastos. “Já viu quanto custa um rímel decente?”, argumentava.

Agora, no entanto, havia o Mauricinho. “O Mauricinho, ai o Mauricinho”! Uma mudança se fazia necessária: era a hora de deixar Maria Clara para trás e se tornar apenas Clara. Maria dava um ar puro demais e a revista/o seu guia espiritual recomendava até alterações no nome – se possível, direto na certidão de nascimento – para aquelas que estivessem dispostas a se tornar verdadeiras femme fatales. Fêmeas-alfa. E Maria Clara, claro, estava.

Nove horas da noite, sexta-feira. Mauricinho bate o pé e olha para o relógio. Ela não é de se atrasar. Chega um táxi. Lá estava Clara, ex-Maria. Havia feito tudo, seguindo religiosamente os passos da “Sua Revista”. Ruiva, maquiada, com uma saia de couro dois números abaixo do seu, após uma longa semana de malhação igual à de Paula Pitta (que corpo, que pele, que cabelos!). Mas não era a Maria, a Maria dele, que, com toda a sua jequice, tinha um charme desajeitado, torto, único mesmo.

Tinha.

Desconhecendo aquela ruiva estranha enrolada em couro, Mauricinho foi-se embora. Logo hoje, quando Maria tinha trezentas novas posições incríveis para enlouquecer um homem na cama. Trezentas!

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