Um relato sóbrio na noite carioca

Outubro 21, 2014Bianca MólSem Comentários

Ter vinte e três anos, sair e beber água ou suco de laranja seja na casa de avós (mesmo que eu não tenha avós), seja em alguma casa noturna (mesmo que eu não frequente casas noturnas) faz com que sobrancelhas se ergam em desconfiança. No geral, creio que acham que sou alguma religiosa enrustida, que saí recentemente do rehab ou que devo ser a protagonista de vexames homéricos quando sob o efeito alcoólico. Não, a ideia de você simplesmente “não gostar de beber” é muito simplista e em absoluto não é levada em conta.

Nunca bebi nada que gostasse, e a cara que faço quando, obrigada, dou golinhos na champanhe de ano novo, é algo como “sutis bebericadas em veneno estricnina”: torço o nariz, fecho um dos olhos, franzo a testa, prendo a respiração. Por outro lado, deleite-me com um copo de Fanta Uva que a felicidade será certa. Há algum tempo, porém, cortei informalmente o refrigerante de meu consumo habitual, pois detectei a inabilidade de beber apenas um copo de Fanta Uva, mas uns quatro ou trinta sem nem perceber.

Ah, a abstinência!

Dia desses retiraram-me de meu bunker particular e arrastaram-me para uma dessas noites que nada tem a ver com você. De início, entrei em pânico. Ficar em um lugar onde não se pode manter contato visual com alguém por mais de dois segundos, já que isso significa tudo menos “só estou te olhando por dois segundos (e, juro, cara, não é nada de mais)”, é meio desesperador, ainda mais sóbria.

Quando me vi sentada em alguma cadeira, na luz negra, ao som de Naldo, em frente a um cara com cheiro de outras mulheres, puxando-me pelo braço na vã tentativa de que prestasse atenção em seus “você-vem-sempre-aqui?”, confesso: pensei que talvez uma boa dose do que houvesse de mais forte pudesse me desligar temporariamente daquele “aqui”, que, não, moço, eu nem sempre venho aqui, na verdade, nunca, eu nunca venho aqui.

Disse, então, no bar:

– Oi, me desce… – “me desce”? As pessoas falam assim mesmo na vida real ou seria essa uma frase típica de dublagem de filme americano, que nada tem a ver com a linguagem cotidiana, tipo os “tiras” que na verdade são policiais? Questionamentos à parte, subitamente senti que me apropriava de um vocabulário que de fato não me pertencia, mas o DJ agora partia para uma segunda música do Naldo e eu não fazia ideia de quantas ele tinha no seu repertório. Precisava agir rápido. – …é, me desce o que você tem de mais forte pra eu esquecer que tô aqui.

Ele fez que sim com uma das mãos, enquanto terminava de elaborar um drink cor-de-rosa psicodélico. Pensei em pedir pra mim também, no maior estilo “traz a bebida que pisca”, mas meus conhecimentos internéticos ensinaram que ela pertence a reis do camarote e afins, e, bom, eu ia voltar pra casa de ônibus, então talvez só uma bebida bem barata e furreca já desse pro gasto.

Foi quando o barman tirou um cartão do bolso e me entregou.

“Barra Táxi 24h”.

Agradeci e disquei o número. No caminho, pensei se meu deslocamento estava realmente tão nítido. Talvez tenha sido o “oi, me desce…” e toda aquela história dos “tiras”, mas já não importava mais. Entrei em casa, tirei os sapatos, perdi sete centímetros, voltei a sentir os movimentos do mindinho, me joguei na cama e vi uns cinco episódios de The Office no Netflix.

Seguidos.

Com um copo ridiculamente gelado de Fanta Uva do lado.

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